sábado, 24 de março de 2012

Lembranças, histórias, marcas, saudade...


Vinte e quatro de março. Hoje completam seis meses que estou sem a minha avó por aqui. Engraçado... tem dias que parece que fazem apenas alguns dias, tem dias que parecem anos sem ela. Às vezes tenho diálogos com ela na minha mente, em algumas noites tenho sonhos com ela. Muitas noites, aliás. Ela me lançaria um olhar de reprovação se me visse nesse estado, prometi a ela que ficaria bem quando ela partisse, mas afinal, quando é que eu cumpro minhas promessas?  Lembro de cada momento com ela. Ela me ajudando a aprontar as coisas para a escola. Ela trazia achocolatado quentinho na cama para mim. Eu era uma criança da peste, diga-se de passagem. Quando a minha mãe estava em casa deixava eu assistir TV com ela até tarde da noite, e quando ela ia trabalhar, vovó me colocava cedo na cama, e não eram raras as noites em que eu fugia do quarto e ela vinha furiosa e cheia de graça me levar para cama novamente. Meu avô, marido dela,  morreu quando eu tinha cinco anos, ele era o máximo, apesar de ranzinza. Não vi ela derramar uma lágrima naquela época, ou cinco meses antes, quando a filha dela, mãe da minha irmã não-biológica faleceu. Ela era tão forte, mas tão forte. Almoços de domingo, reuniões no natal e páscoa, missas.  Dá pra acreditar que era sagrado ela fazer aqueles biscoitos natalinos com merengue e confeitos?!


O ano era 2000 e o mês Janeiro, não lembro o dia e nem faço questão de lembrar. Acordei com a minha mãe me sacudindo, dizendo para eu levantar que uma prima iria nos levar para a casa da minha tia, enquanto ela levaria minha vó para o hospital, porque aparentemente ela tivera um derrame. A partir daí começaram dias diferentes. Ela voltou debilitada, precisando de cadeira de rodas e muletas. Um dia eu estava correndo pelo pátio, quando uma tia me chamou, e disse que eu, por ser bagunceira, inquieta e irritante tinha ajudado a minha  avó a entrar naquela situação, e perguntou se, agindo daquela maneira, eu esperava fazer o mesmo com a minha mãe. Acabei contando para a minha vó algum tempo depois, e claro, ela me tranquilizou sobre isso. 

A partir de então, eu passei a cuidar da minha vó. Comecei preparando o café da tarde, logo aprendi como colocar ela na cama, como ajudar ela a se vestir, fazer almoço. Minha mãe, que antes tinha como único compromisso ir trabalhar, precisou assumir as rédeas da casa, uma tarefa árdua quando você tem outros seis filhos da sua mãe dando palpites, e tentando dizer a filha mais nova dela o que é certo e o que é errado. Minha mãe pirou bastante e eu me distanciei um pouco dela. Em compensação me tornei cada dia mais parceira da minha avó. Aprendi sobre os apuros que ela praticamente criança, passou nos anos finais da segunda guerra mundial, já que naquela época ela não sabia falar Português. Soube que ela pensou seriamente em se tornar freira. Descobri que ela aprontava horrores com os irmãos dela na infância.Ouvia assustada as histórias sobre o pai dela, um professor severo do tempo da palmatória, mas no fundo um cara legal. Olhar fotos com ela era como viajar no tempo e encontrar pessoas que eu sequer tinha visto pessoalmente.  Decidi que queria tirar fotos de todos os meus momentos importantes na vida.
Por volta de 2004 as coisas ficaram difíceis. Eu comecei a ter minhas crises, já estava andando de braços dados com a bulimia, começamos a brigar com frequência, mas sempre passou. De repente os dias, meses e anos correram, e em 2009, quando a minha mãe estava no fundo de uma depressão terrível, praticamente irreconhecível, vovó foi morar com uma tia, que vivia na rua do lado, mas em 2011 decidiu repentinamente se mudar. Comecei a ver minha vó uma vez por mês, e foi assim, sem abraços, que a vi partir. Na última vez em que a vi ela não estava 100% lúcida, e não canso de me lembrar que em meio a devaneios ela perguntou como estavam as aulas que eu estava dando, e disse que o pai dela ficaria orgulhoso de mim. E falou o que ela me falava TODAS as noites quando eu colocava ela na cama: “Reza Marcy. Eu estou sempre rezando por ti.” Só que dessa vez ela disse algo mais: “Reza por mim também, confesso que às vezes eu não tenho forçar para rezar como antes.”

Queria contar para ela sobre o show do Roger Waters amanhã, perguntar o que fazer com minha mãe, que está entrando em depressão novamente. Queria contar sobre as minhas trapalhadas em diversos sentidos da vida, ela tinha o dom de conseguir rir da maioria das coisas no final.  Queria ouvir dela que essa é só uma fase ruim que vai passar, porque aí eu teria certeza que é verdade.
Enquanto isso a “vida” segue, e preciso mudar essa que estou levando, se quiser voltar a chama-la de vida novamente.



7 comentários:

Anne Darkness disse...

Ô Marcy :( seu texto só não me fez chorar porque segurei. E tu sabe que não sou mole assim.
Saudade dói. Mas tu tem muitas boas lembranças dela, e isso é muito, muito bom. Lembre, chore, esperneie! Qualquer coisa. Só não lamente, nem pense no que se arrepende de ter ou não feito. Aposto que ela puxaria tua orelha se te visse triste! Agradeça muito por todas as coisas boas que ela te fez viver :)

bjbj
E óoootimo show pra você amanhã! Sua inútil! Eu nem queria ir mesmo u.u

Gabsi B. disse...

Aaaai Marcy, fiquei com o coração apertadinho agora. Não sei como é perder uma avó ou um avô. A dor que vc sente deve ser muito grande, mas esse tipo de coisa todo mundo passa e de alguma forma serve pra gente crescer e amadurecer. Vai chegar um dia em que tudo que vc vai sentir vai ser a saudade e vão restar as lembranças boas.

Curta muito o show!
Beijo ♥♥

Tati Alves disse...

voltei flor tava com saudades daqui,se cuida!

Mari disse...

Marcy, sou apaixonada por você. É sério! Tua forma de escrever é tão envolvente, que eu fico lendo e fico pensativa depois.

E agora, olha só essa potagem. Que história mais linda. Sim, mesmo com tantas desventuras, é muito bonito ver você narrando as coisas depois de tanto tempo. Ver tua preocupação, teu devaneio, sabe?

Sua avó foi muito importante para você, e tenho certeza que você pra ela. Aguenta firme, e guarde só as coisas boas.

E ah, eu com minhas duas avós vivas, não sou muito próxima... Confesso que isso me deixou pensativa. Eu não sei nada sobre o passado delas, sobre o que elas fizeram e em que época viveram (mesmo eu tenho uma noção lógica). Puts.

Um grande beijo.

A Noiva Cadáver disse...

Sim querida, eu acredito que os merengues e biscoitos natalinos de sua avó eram sagrados.
Mas não acredito que o fato de tu seres “bagunceira” quando criança tenha contribuído para o ocorrido com sua avó.

(●•Lia •●) disse...

São dores diferentess e ao mesmo tempo iguais. Vc tem 06 que perdeu alguém muito importante em sua vida... e eu tb!
Sinto muito a falta de minha mãe, não sei como lidar com a doença do meu pai, ter que controla-lo esta ficando cada vez mais dificil... e ela consegui fazer isso normalmente!
Sonho constantemente com ela...sonho que ela sempre esta chamado minha atenção... e que eu tenho que melhorar nisto e naquilo. Que tenho que ter um filho... e tomar meus remedios diretinho!

É muito dificil lidar com essa dor!
Como vc disse... as vezes parece anos e outras que foi hoje... e que a qualquer momento quando eu chegar na casa dela (meu pai agora) ela vai esta lá e dizer: "Lia pensei que tinha morrido!" Ela sempre brincava assim comigo quando passava alguns dias sem ir lá!

As imagens dela estava no meu pc... as coisas delas a maioria estão aqui, já que tivemos que retirar da frente do meu pai... e as vezes acho coisas... que ela amava e nem chegou a usar.

Senti muito por nós amiga!
Sinto por ti, não ter alguém para ajudar com sua mãe.

Melhoras a todos!

Lady disse...

Meu Deus como eu viajei,seus textos são maravilhosos,sempre que estou lendo faço um filme na minha cabeça e é tão gostoso isso.
Ram eu tb tenho uma vó que amo muito só que ela mora distante de mim e quando vem me visitar,nossa é maravilhoso.Eu adoro velhinhas das conversas de como era o tempo delas,da vida delas,de tomar cházinho,aprender a tricotar,sentar na poltrona e ver filmes velhos é tão gostosoo isso.Amor vc não pode mais ter isso de volta e nem ela,mas sempre vai estar guardado em suas lembranças e em seu coração!é a única que não pode morrer.
Bjos flor